No meu livro¹ escrevi:
«A canção de Eleni Troszeczkę ziemi, troszeczkę słońca é um dos seus maiores êxitos e tornou-se muito popular na Polónia. A letra foi escrita por Lech Konopiński², que conheci pessoalmente – era também um apaixonado pela filatelia.
Um pouco de terra, um pouco de céu,
porque já não precisamos de nuvens nem de sombras.
Um pouco de terra, um pouco de sol,
um pouco de esperança, e nada mais.»
Devo, no entanto, corrigir aqui um erro que aparece no meu livro. Escrevi que a canção datava dos anos 70. Na realidade, a versão polaca interpretada por Eleni foi gravada em 1983. O erro deve ter resultado do facto de a canção estar tão fortemente associada, na minha memória, à música e à atmosfera da década anterior. Na verdade, a sua história é ainda mais interessante.
Há uma frase, habitualmente atribuída a Johann Wolfgang von Goethe: «Vivemos uma nova vida por cada nova língua que falamos. Se conhecemos apenas uma língua, vivemos apenas uma vez.» Não existe, porém, certeza de que Goethe tenha realmente dito ou escrito estas palavras.
Independentemente da sua verdadeira autoria, a ideia aplica-se surpreendentemente bem também à música.
Quando ouvimos canções em diferentes línguas, descobrimos muitas vezes coisas de que antes não tínhamos a menor consciência. Foi precisamente isso que aconteceu comigo.
Durante anos ouvi a versão polaca da canção de Eleni sem perceber que a sua melodia não tinha origem na Polónia. Foi apenas através da aprendizagem do alemão que descobri que a canção polaca tinha um original – e um original muito conhecido.
O original era «Ein bisschen Frieden», interpretado em 1982 pela então jovem Nicole Seibert, que tinha apenas dezassete anos. Com esta canção, Nicole venceu o Festival Eurovisão da Canção, realizado em Harrogate, dando à Alemanha a sua primeira vitória na história do concurso.
A música foi composta por Ralph Siegel, enquanto a letra alemã foi escrita por Bernd Meinunger.
«Ein bisschen Frieden», que significa «Um pouco de paz», era uma canção simples e melodiosa, mas com uma mensagem muito clara. Acompanhada por uma guitarra acústica e apresentada no contexto da Guerra Fria, exprimia um desejo de paz, amor e tranquilidade. Rapidamente se tornou um grande êxito em toda a Europa.
E foi precisamente esta melodia que chegou mais tarde à Polónia.
Eleni e «Troszeczkę ziemi, troszeczkę słońca»
A versão polaca foi interpretada por Eleni, com uma nova letra escrita por Lech Konopiński, poeta e satirista de Poznań que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Era também, tal como eu, um apaixonado pela filatelia.
Curiosamente, a letra polaca não é uma tradução literal do original alemão. Konopiński criou, na realidade, uma versão completamente nova da canção, mantendo a melodia de Ralph Siegel, mas dando-lhe outro significado e outra atmosfera.
Em vez do alemão «um pouco de paz», encontramos terra, sol, esperança e o nosso próprio mundo. A canção ganhou assim uma vida completamente nova na Polónia.
E talvez seja precisamente por isso que, durante tanto tempo, nunca a associei à Alemanha. Para o ouvinte polaco, era simplesmente uma canção de Eleni.
Só o conhecimento da língua alemã me permitiu descobrir este pequeno mistério musical.
Mas este não foi o único caso.
«Vinho Verde» – ou «Griechischer Wein»
Algo semelhante aconteceu com a canção interpretada pelo cantor português Paulo Alexandre, «Vinho Verde». Conhecia a canção, naturalmente, em português. Quando a ouvi pela primeira vez, porém, a melodia pareceu-me extraordinariamente familiar. Não tive dificuldade em reconhecer nela a melodia que conhecia da versão polaca «Greckie wino» («Vinho Grego»), interpretada por Anna German.
E, mais uma vez, uma análise mais atenta dos autores trouxe uma surpresa.
Descobri que nem a versão polaca nem a portuguesa eram a original. Ambas tinham origem numa canção alemã.
O original chamava-se «Griechischer Wein». A música foi composta pelo cantor e compositor austríaco Udo Jürgens, e a letra foi escrita por Michael Kunze.
A canção, lançada em 1974, tornou-se rapidamente um grande êxito no mundo de língua alemã. Conta a história de emigrantes gregos que vivem na Alemanha, sentem saudades da sua pátria e recordam o seu país enquanto bebem vinho grego.
Alguns anos mais tarde, a canção ganhou uma nova vida em Portugal. Paulo Alexandre gravou uma versão intitulada «Vinho Verde», também conhecida como «Verde Vinho», com uma adaptação da letra para português feita por Santos Modesto Pereira da Silva, conhecido simplesmente como Santos Modesto.
E, mais uma vez, a mesma melodia começou a viver em diferentes países, em diferentes línguas e com diferentes letras.
Para um ouvinte polaco, era «Greckie wino», na voz de Anna German. Para um português, era «Vinho Verde», na voz de Paulo Alexandre. Para um alemão, era «Griechischer Wein», de Udo Jürgens.
Se eu não conhecesse línguas estrangeiras, provavelmente nunca teria descoberto estes originais alemães.
E é precisamente por isso que, para mim, as línguas são muito mais do que um simples meio de comunicação. Permitem-nos descobrir coisas escondidas por baixo da superfície das palavras. Às vezes levam-nos a um livro, outras vezes a um documento de arquivo e, outras ainda – como neste caso – a uma melodia que conhecemos há anos sem nunca nos termos apercebido da sua verdadeira origem.
O que é particularmente interessante é que os originais alemães nem sempre são hoje tão populares como as suas versões estrangeiras. Uma adaptação polaca ou portuguesa pode ganhar uma vida própria e tornar-se mais familiar às gerações seguintes do que o próprio original.
Será uma questão da musicalidade de uma determinada língua? Ou talvez simplesmente uma questão de uma boa letra, capaz de retirar uma canção do seu contexto original e dar-lhe um significado completamente novo?
Isso, porém, já é assunto para outra história.
¹ Andrzej Philips, O mnie. Chłopiec z PRL-u, 2025, p. 213.
² Lech Konopiński (16 de março de 1931, Poznań – 13 de dezembro de 2023, Poznań) foi um poeta e satirista polaco, autor de obras para crianças e jovens e de programas de televisão.
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